A essência do Evangelho: uma bola invisível! 3ª Parte

Quantos de nós temos abraçado o Maique, tirado onda com ele, comprado sorvete para ele e jogado futebol com a sua bola invisível? Ah Maique! Deixa eu te apresentar para quem está lendo esse texto.
Outro dia fui com um amigo e duas amigas tomar sorvete. Na frente da casa de uma dessas amigas – Layla o nome dela – há uma associação que hospeda em condições precárias pessoas portadoras de hidrocefalia. Quando chegamos parei o carro e vi um pai manobrando uma pequena cadeira de rodas com uma criança – era o Maique, de quatro anos de idade. Já havia muitas vezes parado o carro ali, olhado, mas nunca havia entrado. O amigo me disse: “vamos entrar?” Sem responder a pergunta fui entrando.
Dentro estavam o Maique, portador de hidrocefalia, seu pai e mãe, ambos do interior do Estado. Vi algumas fotos de outras crianças. Perguntei quem sustentava aquele lugar. “Um senhor que é médico”, disse a mãe do Maique. Mas chegou aos meus ouvidos algo do tipo: “um senhor que não está aos domingos nas igrejas, mas que não se esqueceu do seu próximo!”
O amigo que estava comigo expressou sua conclusão que já era minha também: “bicho a gente não faz nada por ninguém”, exclamou o sujeito chamado Ismael!
Maique perguntou o meu nome e eu comecei a me alegrar com ele. Ele me chamou para jogar bola. Suas pernas não se firmavam porque ele, além de hidrocefalia, tem também deficiência motora. Perguntei pela bola. A mãe de Maique me disse que a bola era invisível. Pouco importava a bola, ele só queria atenção. Pouco importava se a bola existia ou não. O importante era ter com quem jogar. Pensei eu: “bom, se ele joga com uma bola invisível, é natural que aceite jogar com um cristão invisível como eu”.
É o que temos sido quando nos resumimos a nos reunir em nossos mosteiros eclesiásticos para “louvar a Deus” sem lembrar dos Maiques perdidos por aí com suas bolas invisíveis. Somos cristãos invisíveis.
Jogar com uma bola invisível, chutar com as pernas que são falhas e brincar. Sorvete foi um pedido que ele fez nas entrelinhas da conversa. Essas coisas tão singelas e tão ao nosso alcance eram capazes de alegrar-lhe.
Cada dia mais o amor de Cristo pelo próximo tem sido só uma referência histórica em nossa vida. Brincando com as palavras, o amor pelo próximo é uma lembrança esquecida no fundo de nossas mentes. É isso mesmo, uma lembrança esquecida! Lembramos que o próximo existe apenas quando lemos, e raramente lemos, a parábola do bom samaritano ensinada por Jesus. O nosso próximo é um estranho para nós e já não nos constrange saber que nós não fazemos absolutamente nada por ele.
O evangelho de Cristo, essencialmente contido nos livros de Mateus, Marcos, Lucas e João mostra com clareza solar que contribuir com a dignidade do próximo é um exercício Cristão.
De tudo isso, só posso concluir que não sabemos mais qual a essência do evangelho de Cristo. É para nós como uma bola invisível. Nós não a enxergamos mais; o Maique, porém, me mostrou onde estava!
A essência do evangelho que temos vivido é egoísta e superficial.
Talvez ter passado um pequeno pedaço da tarde com o Maique, jogando bola invisível, tomando sorvete e torcendo contra o Flamengo, tenha sido o gesto mais Cristão que já fiz. Acho que se Cristo estivesse aqui, no domingo à noite, depois da igreja, iria visitar o Maique ao lado da casa da Layla e levaria uma bola de verdade para ele! Você iria?
Parafraseando Martin Luther King, só posso dizer a Deus uma coisa: “não sou quem um dia serei, mas me perdoa Senhor pelo cristão que até hoje fui!”

*João Vinícius Brito frequenta a Igreja Batista no Jóquei, é servidor público federal, viciado em café e coca-cola.

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