A ideologia do prazer. Movidos a diversão?

Israel Belo
Na preparação e aplicação do nosso projeto de vida, temos três amigos, que são inimigos ao mesmo tempo, servindo como possibilidades e tentações: poder, dinheiro e sexo. A ordem não importa, porque os três raramente não estão juntos e todos têm sempre a ver com prazer. Eles são tão fortes que se tornam o projeto de vida de muitas pessoas, mesmo que nem sempre claramente.
Esses amigos e inimigos se apresentam a nós como ideologias, as quais se oferecem a nós como palavras de ordem. Eis algumas delas:



IMPONHA-SE! Num mundo de anônimos, destaque-se e faça prevalecer seus desejos e interesses. O resultado é que "sofremos de um mal na atualidade: a incivilidade. A toda hora, somos obrigados a testemunhar cenas de grosseria entre as pessoas, de falta de respeito pelo espaço que usamos e de absoluta carência de cortesia nas relações interpessoais. Parece mesmo que nossa vida segue um lema: cada um por si e, ao mesmo tempo, contra todos [...]". (Rosely Sayão.)
Este é o padrão. Deve ser também o padrão de um cristão? Não, o jeito de viver de um cristão tem que ser outro: 

"Evite as controvérsias tolas e inúteis, pois você sabe que acabam em brigas. 
Ao servo do Senhor não convém brigar mas, sim, ser amável para com todos, apto para ensinar, paciente" (2 Timóteo 2.23 e 24).

O cristão vive na contramão. E para viver na contramão, o cristão precisa de uma atitude e de uma prática. A atitude é a coragem, sabendo que "Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de equilíbrio" (2 Timóteo 1.7).
E eu me pergunto se não temos nos acovardado, por medo (o que vão pensar de nós) e por conveniência (alimentada pelo prazer de pecar)?



ENRIQUEÇA! Chegamos a um ponto do capitalismo, que as pessoas estão ficando doentes. O capital só visa o capital. A busca por lucro impõe sobre os trabalhadores metas que estressam as pessoas, tornam insuportáveis os ambientes de trabalho.
Isto no plano do trabalho, porque no plano do consumo, necessidades são criadas para que os produtos sejam comprados. O capitalismo vende a ideologia que consumir é ser. E nós acabamos acreditando. Não nos basta um cartão de crédito. Não nos basta uma conta bancária. Quando Barack Obama disse (julho/09) que nunca mais os norte-americanos iriam voltar a ter o padrão de consumo que tiveram, não lhe faltaram críticas por tirar os sonhos das pessoas. 
O dinheiro é idolatrado. Quem tem pouco precisa ter mais. Quem tem muito precisa ter ainda mais. A pressão por resultados alcança todas as faixas etárias, até mesmo de adolescentes que são pressionados a vitórias que a alguns debilitam e adoecem em lugar de os fazer vencedores, como se houvesse um padrão que todos devessem seguir, ignorando-se que cada um de nós é uma pessoa única.
Há, portanto, uma outra vida possível, longe do altar do dinheiro, necessário como um meio, não como um fim. Eu me pergunto se, em nossas igrejas, tratamos o dinheiro como a Bíblia manda que tratemos:

"Os que querem ficar ricos caem em tentação, em armadilhas e em muitos desejos descontrolados e nocivos, que levam os homens a mergulharem na ruína e na destruição, pois o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. Algumas pessoas, por cobiçarem o dinheiro, desviaram-se da fé e se atormentaram com muitos sofrimentos" (1Timóteo 6.9-10)



DIVIRTA-SE! Ganharam manchetes no mundo todo algumas declarações do guitarrista Noel Gallagher, líder do grupo britânico Oasis, que me fizeram lembrar uma afirmativa da cantora Lisa Minelli, de que, no mundo dos espetáculos, até quem não usa droga diz que usa, para não ficar de fora do sistema.
Numa entrevista ao jornal italiano "Corriere della Sera", Gallagher confessa: "Olho para Chris Martin [vocalista da banda Coldplay] que diz que nunca consumiu drogas em sua vida e penso que ele é um idiota. Drogar-se é o melhor de estar em uma banda de rock".
Em outro trecho, fica bem evidente a ideologia do "divirta-se": "Nós subimos ao palco e tocamos. Estive em muitos shows em estádios: todos falam de política e nenhum toca. E as pessoas estão ali pela música. Em um espetáculo do U2 ou do Coldplay, sempre há uma mensagem sobre os pobres ou sobre as pessoas que morrem de fome". Está bem, mas não podemos só ter uma noite agradável? Devemos nos sentir à força culpados?"
Nossa sociedade pensa a diversão como uma coisa do corpo, seja no campo da música, sejam no território da sexualidade, que não pode ser reprimida, mas extravasada. O que a sociedade faz é sacralizar a nossa natureza. Naturalmente, "somos mais amantes dos prazeres do que amigos de Deus" (2Timóteo 3.4). Naturalmente, nós nos deixamos "levar por toda espécie de desejos" (2Timóteo 3.6). Naturalmente, a nossa mente é depravada (2Timóteo 3.8).
Os meios de comunicação têm suas colunas de aconselhamento sexual. A ideologia é a mesma. Sexo não tem a ver com amor, mas com desejo. Realize o seu desejo. Sexo não tem a ver com casamento. Tem a ver com desejo. Realize-o. É como se não houvesse vida fora do exercício da sexualidade, não importa com quem.
Quando a banda Jonas Brothers veio ao Brasil pela primeira (2009), foi bem divulgada a promoção que o grupo faz da defesa do sexo como próprio só no contexto do casamento. A divulgação, no entanto, tinha um tom descarado de deboche por parte dos meios de comunicação. Por isto, para uma visão menos editada, é preciso ir ao site da banda. Lá há uma pergunta, a mais discutida, que é a seguinte, dirigida a um dos componentes: "Joe, por que você usa um anel no seu dedo direito da mão esquerda?". A resposta do artista foi: "É o anel da pureza. É uma promessa a mim mesmo e a Deus que permanecerei puro até o casamento".
Seguir na contramão é contra a natureza e contra a cultura. 
E eu me pergunto: quantos são os que desejam permanecer firmes, com os compromissos que firmaram com Deus, em várias áreas de sua vida?

Israel Belo. Escritor, conferencista, pastor da Igreja Batista em Itacuruçá, no Rio (RJ).

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