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| Israel Belo |
A IDEOLOGIA DA DIVERSÃO
Cada época tem uma ideologia própria de que seja a felicidade. Na nossa época, felicidade está associada à diversão. Uma evidência disto é que a publicidade, esta técnica capaz de flagrar as necessidades humanas, tem como pressuposto que toda a sua comunicação deve ser revestida de humor. Neste território, a publicidade brasileira, especialmente a televisiva, é uma das mais divertidas do mundo.
As ações de marketing procuram responder a essas necessidades e vender mais produtos, serviços e idéias. Há um anúncio de uma empresa fabricante e distribuidora de picolés e sorvetes que tem o seguinte slogan (2007): "movido a diversão". Há uma informação implícita: "este sorvete é movido a diversão". Há um convite implícito: "Faça com que sua vida seja movida a diversão" ou "Tendo diversão, você tem tudo. Tome o nosso sorvete e você terá tudo o que precisa".
Sim: felicidade, antes, era sinônimo de alegria; agora, precisa ser sinônimo de diversão.
Em função destes desejos, tomados como necessidades, há uma indústria cultural a nos vender as oportunidades de diversão. Não temos que cavar a informação; ela nos é fornecida. Não temos que buscar roteiros turísticos, eles nos chegam em casa. Não precisamos ir ao teatro comprar o ingresso; nós o compramos pelo computador.
Na verdade, a diversão se tornou um valor. Tudo tem que ser divertido. Uma aula tem que ser divertida. Um programa de televisão tem que ser divertido. Uma compra no supermercado tem que ser divertido. Um livro tem que ser divertido. Um culto ou um sermão tem que ser divertido. Um telejornal tem que ser divertido. O dia tem quer divertido; se não for possível, o fim-de-semana tem que ser. A vida tem que ser divertida; se não é, vale tudo para que seja: a ingestão de drogas (seja o cigarro que acalma, o tóxico que alucina, o remédio apaziguador ou o álcool euforizador) ou a participação num esporte radical, onde se dissipe muita adrenalina, para usar a linguagem da cultura do entretenimento.
Mais que um passatempo, para o tempo livre, a diversão se tornou uma ideologia, um modo de viver. É como se a vida fosse insuportável sem a diversão. Todo silêncio deve ser preenchido. Todo conflito (e a vida é conflito) deve ser negado.
Felicidade se torna, então, ausência de conflitos, numa espécie de supressão compulsiva da realidade.
É por esta razão que se multiplicam as tecnologias para o encerramento dos conflitos. A própria religião faz parte deste circo. Mesmo a religião cristã procura varrer da Bíblia aqueles versículos que não ignoram a natureza decaída do ser humano, por causa do pecado; há versões pagãs de Cristianismo que são sedutoras precisamente por oferecerem respostas aos dilemas humanos que parodiam as respostas pagãs.
ENCONTRADOS PELA GRAÇA
Quando lemos o salmo 4, podemos nos perguntar se o poeta não sucumbiu à ideologia da diversão, da felicidade pela superfície, quando diz (nos versos 7-8): "Encheste o meu coração de alegria, alegria maior do que a daqueles que têm fartura de trigo e de vinho. Em paz me deito e logo adormeço, pois só tu, Senhor, me fazes viver em segurança".
Os versos anteriores deixam claro a peregrinação do poeta, feita de angústia e aflição.
Ele começa rogando ao Senhor: "Responde quando clamo, oh Deus que me fazes justiça! Dá-me alívio da minha angústia; tem misericórdia de mim e ouve a minha oração" (verso 1).
Sua salvação não vem de nenhuma tecnologia médica ou comunicativa. Vem da Fonte. O vazio não pode ser produzido por quem o experimenta; o vazio só pode ser preenchido pelo autor da vida, por Aquele que projetou o corpo, a mente e a alma do ser humano, por Aquele que não faz de conta que preenche o vazio, mas que o preenche mesmo, com Sua própria presença.
Por isto, o salmista conta a sua história. É a mesma de tantos outros alcançados pela graça de Deus.
O poeta se recorda que também procurou abastecer-se na ilusão e na mentira. E o que encontrou? O vazio. (Verso 2)
O poeta clamou pelo Senhor Deus, depois de ter tentado os ídolos, e foi escutado. (Verso 3)
Agora não se desespera mais. A ansiedade lhe vem, porque vem a todo ser humano; a aflição lhe estreita o caminho, como acontece a todos nos vales da experiência humana. No entanto, não se revolta mais contra Deus, nem atacando quem está ao seu lado (verso 4).
Reconhecido, ele presta culto a Deus, não culto para agradar a si mesmo, como uma forma de diversão; seu culto tem arte, mas é arte para Deus. Neste culto, depois de aprendido, pode ficar em silêncio diante de Deus, para que possa escuta. Antes, Ele falava o tempo todo e Deus ficava quieto, sem nenhuma chance de proferir sequer uma bênção. (Verso 5)
Transformado, vive movido não a diversão, que desfruta, mas a esperança. Ele sabe que a luz do rosto de Deus brilha sobre o seu próprio rosto (verso 6). De que mais precisa?
A chave da experiência deste crente está no verso 7: "Encheste o meu coração de alegria".
Ele classifica esta alegria como sendo "maior do que a daqueles que têm fartura de trigo e de vinho".
A experiência deste crente é a chave para a sua vida.
Em algum momento da sua jornada, marcada por buscas, interrogações e esforços, ele conheceu a Deus. Depois do encontro, o resto é luz. Depois da conversão, a plenitude.
O que buscava em suores recebeu de graça, como dom. Só a graça nos salva.
Graças ao Novo Testamento, entendemos muito bem este processo comunicativo de Deus.
Quem o viu de carne e osso, o evangelista João, assim descreve Jesus Cristo: "Nele estava a vida, e esta era a luz dos homens. A luz brilha nas trevas, e as trevas não a derrotaram. (...) Aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram por descendência natural, nem pela vontade da carne nem pela vontade de algum homem, mas nasceram de Deus. Aquele que é a Palavra tornou-se carne e viveu entre nós. Vimos a sua glória, glória como do Unigênito [Filho único] vindo do Pai, cheio de graça e de verdade" (João 1.4,5,10-14). Jesus é, portanto, a alegria dos homens.
A luta desesperada pela alegria acabou. Com Jesus, ela veio como dom. Com Jesus, Deus lançou a semente da alegria, para ser recebida com alegria (Mateus 13.20). Nos termos do salmista, o encontro com Deus nos enche os corações de alegria. Este encontro se dá num momento. Ter este encontro é conhecer a vereda da vida, a alegria plena da presença de Deus, eterno prazer (Salmo 16.11).
Quem quiser mover sua vida de um modo que vale a pena precisa receber a Jesus. Ele nos implanta o chip da alegria.
Com esta alegria implantada, buscaremos as festas, procuraremos domar as circunstâncias, cultivaremos as amizades, mas não dependeremos que estas coisas se realizem para que nos sintamos plenos. Nossa plenitude vem da certeza da companhia de Deus conosco.
TEOLOGIA DA DIVERSÃO
Com o salmo 4, aprendemos que não é o movimento que vence o tédio.
Quem busca a alegria junto com Ele certamente encontra a plenitude.
Se queremos nos divertir verdadeiramente, no sentido de nos alegrarmos verdadeiramente, precisamos cuidar para que não sejamos seduzidos por ilusões, que são mentiras que brilham diante de nós. Quem teve um encontro com Deus e recebeu sua alegria vive momentos de emoção, busca-os até, mas não põe neles a sua felicidade; busca-os, mas cuida para que não se convertam em ídolos sobre a sua vida; presta atenção para não ser controlado por estes momentos e atividades, de modo a perder o essencial, que é a certeza de que o que importa é Deus. Quem tem Deus não ama ilusões e não busca mentiras (verso 2).
Quem tem a Deus invoca a Deus, vivendo de modo santo, sem trocar seus valores por um prato de lentilhas do pecado por mais saboroso que pareça. Nas horas da tentação, quem é movido, não pela diversão, mas pelo Espírito Santo, sabe quem é: alguém que teme ao Senhor, que não o troca por nada (verso 3). Ele sabe que o ouve.
Quem tem a Deus não perde de vista as conseqüências, negativas e positivas, dos seus atos (verso 4). Quantas vidas são perdidas por um instante de prazer, seja a da velocidade, a do sexo, a da droga! Quantos cônjuges destroem suas vidas e comprometem o bem-estar de gerações por um desatino de infidelidade!
Quem tem a Deus confia em Deus, tendo prazer em prestar culto a Ele na igreja e na vida. Quem confia em Deus contempla a Deus e vê Quem Ele é. E quanto mais o vê, mais o ama, mais o contempla, mais se completa nEle. Quem contempla a Deus, mais considera suas instruções (verso 5). Quem considera a Palavra de Deus procura andar na sua presença (verso 6). Quem caminha na sua presença experimenta alegria, que é força e farol.
É claro que a ideologia da diversão encontra eco em nossas ações, porque fomos feitos também para a diversão. Eis uma necessidade básica nossa.
No entanto, cuidado. A ideologia da diversão, que está associado ao comércio, põe-se acima da vida. Eis a sua filosofia: comamos e bebamos, como se amanhã fôssemos morrer (Isaías 22.13; 1Coríntios 15.32).
Mova-se a diversão, mas sem perder o efeito da conversão. Um dia você teve um encontro com Cristo. Que Ele continue sendo o farol de sua vida, não as luzes de uma festa.
Mova-se a diversão, mas não saia do caminho da santificação. Ser santo é caminhar na presença de Deus visando a perfeição.
Mova-se a diversão, mas não abandone o compromisso da missão. Ao ajudar ao próximo, você se movimenta, é abençoado, afasta o tédio e abençoa.
Fonte: www.prazerdapalavra.com.br/
21:28
Veron







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